Entrevista – Teco Medina

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Foto: Divulgação

Teco Medina

Formado em finanças pelo Insper, atua no mercado financeiro há 16 anos e se especializou em economia. Além de palestrante, atua como co-apresentador de três programas da rádio CBN, Fim de Expediente, Hora de Expediente e Call de Abertura. Além disso, é autor dos livros Investindo sem Erro e Investindo no Futuro, pela editora Saraiva. Foi, ainda, controller da Luandre – Soluções em Recursos Humanos.

 

 

 

TECO MEDINA, ESPECIALISTA EM ECONOMIA E FINANÇAS, FALA SOBRE RETOMADA DE CRESCIMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO E ABORDA AS PERSPECTIVAS PARA O MERCADO IMOBILIÁRIO

Alguns especialistas chegam a dizer que a crise pela qual o Brasil passou recentemente foi uma das maiores da história. Outros, sequer dizem que podemos dizer que a crise acabou. Com fortes raízes na crise política do País – cujo final é incerto -, a recessão econômica ainda deixa dúvidas, sobretudo no mercado imobiliário corporativo, que está ligado ao setor da construção civil, um dos mais afetados.

Em meio à uma alta taxa de desemprego, a mudança do comando do País depois do impeachment de Dilma Rousseff sinalizou uma melhora no Brasil, ao mesmo tempo em que Michel Temer assumiu e fez alterações imediatas quanto à equipe, ministérios e medidas. Mas o que é verdade e o que não é? Qual deve ser a postura do empresariado e do mercado imobiliário corporativo?

Certamente, a resposta para essas perguntas pode não ser muito clara. Por isso, escutar a opinião e as análises de especialistas é o que pode fazer toda a diferença na tomada de decisões. Para ajudar nesse trabalho, a Revista Buildings realizou uma entrevista exclusiva com o especialista em economia Teco Medina. Confira a seguir!

Qual é a sua visão sobre o momento econômico e político do Brasil, depois de tudo o que aconteceu?

Uma visão de alívio. O primeiro sentimento é de alívio, por acreditar que a gente saiu da maior e pior recessão da nossa história. Pela minha análise, essa crise definitivamente acabou em 31 de dezembro de 2016 e estou bastante otimista com o que pode vir pela frente. Acho que temos dois anos de crescimento pela frente, não temos como deixar isso escapar das nossas mãos. Mas acredito que estamos diante de um cenário que, dependendo do que a gente fizer e dependendo do que for feito em Brasília, podemos estar falando de um começo de um ciclo longo, talvez 6, 8, quem sabe, 10 anos de crescimento. Acho que é um momento bastante interessante depois da pior recessão da nossa história.

No ano passado, alguns especialistas falavam sobre uma retomada da economia para 2018, outros, somente mais para frente. Do seu ponto de vista já estamos crescendo novamente? Ou isso ainda vai acontecer?

Nós certamente já estamos crescendo neste primeiro trimestre. Quando tivermos o resultado do primeiro trimestre, que deve ser divulgado em breve, esse número com absoluta certeza será positivo. A gente está vendo uma safra 25% maior, a indústria está no azul, está crescendo. O setor de serviços provavelmente também vai crescer alguma coisa, então o número vai ser positivo. A questão é que provavelmente será um crescimento perto do tamanho do tombo. Estamos falando de uma recessão de 7,5%, 8% em dois anos, quando você soma as duas, então, quando o País cresce 0,5%, 1% depois de um tombo desse parece nada, mas o número é positivo.

Depois desse possível primeiro aumento do PIB, vamos acompanhar mais crescimento, ainda que de forma gradual?

Estou mais otimista do que a média, mas não é surpresa pra mim se o País crescer 1% esse ano e algo em torno de 3,5% no ano que vem, é com esse número que eu trabalho. Acho que o número desse ano é 0,5%, que é positivo, mas é muito pouco. Mais para frente pode ser 1%, ainda é muito pouco, mas já é positivo. Na verdade vai demorar mais do que a gente esperava, mas a recessão da maneira técnica, que é PIB caindo, acabou.

O mercado imobiliário corporativo foi um dos mais afetados pela crise. Quando essa sinalização de crescimento deve impactar neste mercado?

Acho que no mercado imobiliário a recuperação começa no último trimestre deste ano, quando vamos ter juros num patamar bastante baixo para o nosso histórico, um patamar que vai voltar a atrair investimentos para o setor imobiliário. Quando temos juros altos, existe uma categoria que não vê o mercado imobiliário como um bom investimento, mas acho que a partir do terceiro, do quarto trimestre deste ano, a economia vai crescer em um ritmo bom, com taxa de juros muito baixas, e isso deve, em algum momento, reverberar no mercado imobiliário. A grande questão, que vai ser, na verdade, o pulo do gato para a gente ver o tamanho da recuperação que o País vai ter, é discutirmos o tamanho dessa crise política que parece não ter fim. Para o mercado imobiliário e para o País, você precisa, primordialmente, acreditar que o futuro vai ser melhor do que o presente, você só investe quando você olha para frente e vê uma coisa melhor do que você tem hoje. Se essa crise se agravar muito e, dependendo de como for o clima das eleições do ano que vem, a gente pode postergar essa recuperação por não estar enxergando isso. Acredito que o cenário base é que é a verdade para quem precisa acreditar que o futuro vai ser melhor que o presente, que vamos ter eleições, mas não vamos ter nenhum político muito diferente ganhando a eleição e, portanto, podemos acreditar que o País vai ter uma recuperação econômica sustentável. Acho que esse é o pulo do gato. Os juros baixos que a gente provavelmente vai ter no final de ano já são suficientes para ter um respiro para o setor imobiliário, porque o crédito e os juros são fatores decisivos para esse mercado melhorar.

Um dos fatores que prejudicou diversos mercados, sobretudo o imobiliário, foi a queda da confiabilidade para investimentos no Brasil. A simples retomada da economia vai trazer de volta esses investimentos de fora ou é preciso trabalhar no aumento dessa confiabilidade?

Passa pela parte política. Na verdade, estamos vivendo um período curioso desde 2014, que foi ano eleitoral. Hoje, ainda não conseguimos afirmar para nós mesmos quem vai ser o presidente do País ao final do outro ano. A gente não sabe quem ganharia a eleição. Quando a Dilma ganhou, começou esse papo de impeachment e a incerteza mais forte surgiu. Quando o Temer assumiu, continuamos vendo essa situação de caçar a chapa do TSE, portanto você tem, sim, um risco de que o Temer não termine o mandato, e no ano que vem temos eleição. É difícil você ter muita confiança num País que não tem previsibilidade de uma coisa simples, que é quem comanda o País. Isso é o tipo de coisa que tem atrapalhado muito os investimentos e tem atrapalhado muito para que as pessoas se sintam mais confiantes para qualquer coisa. A gente está passando por um momento terrível, não conseguimos afirmar quem vai ser o presidente do País nos próximos 12 a 18 meses, portanto não sabemos quais são as idéias, qual é a agenda, não sabemos o que está por vir. Isso atrapalha muito a retomada de confiança, a retomada de crescimento, a retomada de investimento e a retomada de qualquer coisa que gere crescimento de longo prazo no País.

Os governos anteriores foram muito voltados para o consumo, o que provavelmente ajudou para a instalação da crise. Com essa perspectiva de retomada de crescimento, qual é a sua indicação para que esse crescimento seja saudável nesse sentido, para que realmente seja um crescimento que vá durar e que não provoque futuramente uma nova queda?

Os governos do PT foram muito omissos, tiveram mesmo como base, o tempo todo, o consumo e a demanda. Mas é preciso cuidar um pouco da oferta. É preciso cuidar dos investimentos, da produção dos bens, cuidar para que as empresas se tornem mais produtivas. E isso passa por uma melhora de infraestrutura, pela oferta de energia elétrica mais barata, por menos impostos, por um jeito mais fácil de pagar impostos… Ou seja, o governo precisa criar condições sobre o lado da oferta, porque o que gera crescimento em longo prazo é um País que produz bens ou serviços de qualidade por um preço aceitável e o Brasil está muito tempo parado na outra agenda, preocupada em como vamos consumir, consumir, consumir… E foi por isso que acabamos um ciclo que se encerrou, e o resultado disso acabou sendo só inflação, porque é o que acontece quando não se cuida da oferta de bens e serviços. Acredito que essa agenda que o governo Temer tem – e a equipe econômica dele é excelente, por sinal – está mais atenta a cuidar da oferta do País, e não só da demanda.

Quais foram os principais prejuízos da crise no Brasil?

Muitos. Primeiro porque é uma crise que não precisaria ter acontecido, é uma crise que, ao contrário de outras que o País teve, foi criada, produzida e mantida por nós mesmos. Tivemos uma destruição de empregos e atualmente contabilizamos 13 milhões de desempregados que não precisariam estar nessa situação se a gente tivesse feito o mínimo. Acho que a pior parte disso é a gente ter perdido muito tempo, e um tempo que o País não precisava ter perdido, porque a gente deveria ter arrumado a casa antes de a coisa ficar tão feia como ficou.

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Foto: Gilberto Evangelista

Quais setores foram mais impactados por essa crise ?

O pior setor foi a indústria. A indústria teve três anos terríveis, voltou quase dez anos no tempo em termos de produção. Mas a construção civil também, que é um setor que emprega muito, é um setor que vinha crescendo muito. Tem muita gente que fala que essa foi a maior crise do setor em toda a história, mas não faltou ninguém. Fora o agronegócio, que bem ou mal tem uma dinâmica própria e conta com produtos e preços muito diferenciados em comparação com outros países, nenhum setor ficou fora dessa crise.

E qual setor você acha que deve voltar com mais velocidade, assim que a economia tiver mais estável?

Normalmente os setores que voltam primeiro são os menos dependentes de crédito. São setores nos quais as pessoas compram produtos ou serviços com o dinheiro que têm no bolso, de salário. São setores que não precisam ter um grau de previsibilidade ou de confiança tão grande para consumir.

Como está a visão da economia brasileira no exterior, independentemente da política?

A gente tem dado muita sorte em relação ao resto do mundo, porque o resto do mundo está convivendo com juros zero ou praticamente zero, e isso facilita muito para que qualquer pessoa com recursos tenha apetite para riscos. Pessoas que têm intenção de investir em países que tem risco e que tem retorno. O Brasil, dos países que proporcionam retorno, é sempre um dos mais atraentes. Somos, bem ou mal, uma democracia, um mercado consumidor gigantesco. Propiciamos uma alavancagem muito grande para as empresas que investem aqui e temos vários exemplos de empresas multinacionais cujos melhores resultados são aqui, mesmo com a crise. Temos setores muito fortes, assim como o nosso mercado consumidor. O que tem atrapalhado é que não estamos fazendo o mínimo dever de casa para que esses investidores se sintam mais a vontade de estar no Brasil. A crise política, de um jeito ou de outro, já não dá folga há três anos. Três anos, todos os dias nas capas dos jornais, temos uma paralisia do País por algum escândalo, e isso atrapalha muito a pessoa a tomar uma decisão, porque que ela sempre pensa que pode esperar um pouco mais para fazer certo movimento, e isso acaba retardando investimento, acaba atrasando o crescimento do País. É algo natural quando o que você está entregando para o resto do mundo é esse grau de incerteza em coisas simples como, por exemplo, quem vai ser o presidente do Brasil no ano que vem ou neste ano.

No mercado imobiliário corporativo, vimos uma queda na ocupação e uma superoferta de espaços. Como você analisa a postura dos incorporadores durante este tempo?

O setor imobiliário, de uma maneira geral, tem muita dificuldade de cortar preço. Não é o único setor do Brasil com esse perfil, alguns vendem menos mas não abaixam o preço. Normalmente, quando existe uma crise, quando as vendas param, a tendência é que a empresa diminua o preço gradualmente, porque em algum momento o valor vi atrair o consumidor. Em ralação às novas construções, acho que pra quem tem fôlego, pra quem conseguiu passar bem por esses dois anos de crise, é o grande momento, porque o problema do país hoje são que os imóveis estão prontos hoje, quem está construindo hoje provavelmente vai entregar isso para um país bem melhor do que a gente está vendo agora. Portanto, ouso dizer que o que está sendo construído hoje vai ficar pronto na hora certa. Talvez o grande erro tenha sido cometido pelas empresas que construíram muita coisa ou se prepararam para tocar muitas obras ao mesmo tempo e entregaram esse estoque entre 2014 e 2016, que foi o momento em que o país parou de crescer. Se eu tivesse uma empresa e tivesse fôlego, estaria construindo agora.

E qual é a dica que você dá para os incorporadores e para os empresários dos diversos setores econômicos neste momento?

Ficar atento para o que vai acontecer nas eleições do ano que vem. Vivemos um momento de muito pessimismo, muita descrença sobre o futuro do país, mas, na verdade, ao mesmo tempo que isso é verdade, também é um momento com uma oportunidade muito grande de gerar um crescimento em longo prazo e de forma sustentável para o País. Precisamos ficar atentos para não chegar muito tarde nesse movimento. Se conseguirmos passar pelas reformas, podemos eleger um presidente no ano que vem que mantenha essa agenda dessa equipe econômica de hoje, de preferência que mantenha a equipe econômica de hoje. Podemos estar diante de uma oportunidade muito grande de começar, de pegar esse ciclo inteiro de crescimento desde o começo. Eu ficaria atento a isso, acho que a gente tem grandes chances de não estar vendo só dois anos de recuperação, a gente está vendo os dois primeiros anos de um ciclo longo de crescimento. Quando as coisas estão indo muito bem, é muito difícil trabalhar com o cenário de que as coisas vão dar errado. Quando as coisas estão dando errado, é muito difícil você trabalhar com o cenário de que a coisa vai mudar. As empresas que saem vencedoras normalmente são aquelas que sacam antes que o ciclo virou. São aquelas empresas que lá em 2013 perceberam que a festa estava acabando, que talvez fosse a hora de resguardar um pouco e tirar um pouco o pé do acelerador. As empresas que vão sair vencedoras daqui a 5, 6 anos são as empresas que entenderem que 2018 pode ser somente o segundo ano de 8 ou 10 de crescimento, e não o segundo ano de uma recuperação. Sei que é difícil falar de um cenário muito contrário do corrente, mas acho que as empresas devem estar atentas a isso. Este ano e o ano que vem podem representar o momento ideal para investimentos em novos espaços, para ganhar mercado, para ganhar produtividade… para ganhar qualquer coisa.

E, finalizando, com tanta informação chegando todos os dias, como fazer uma análise mais assertiva da economia e das perspectivas e prazos de melhoria?

O mais importante é entender que existe uma divisão grande entre sinais e ruídos. Ruído é o que sai todo dia na imprensa, são as delações da Lava-Jato, as coisas que parecem não andar. Os sinais são as coisas mais concretas, como as informações sobre reformas que vão ajudar o País a ter crescimento e as informações que indicam se elas vão passar ou não. É importante acompanhar se vamos conseguir fazer concessões, se vai ter privatização, se vamos conseguir reduzir bastante os juros e se eles vão ficar baixos… Acho que os ruídos te levam a acreditar que o País não tem a menor chance de dar certo, mas os sinais são muito positivos. Se esses sinais continuarem sendo positivos, vale a pena tentar ter um olhar diferenciado, porque as coisas podem dar certo.

Fonte: Buildings

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