Como a gestão de resíduos virou estratégia nas construções brasileiras

Da adoção de práticas de retrofit à escolha de materiais, construtoras e incorporadoras encontram na gestão de resíduos uma estratégia para cortar custos, aumentar a eficiência e agregar valor aos empreendimentos.

São Paulo, 10 de setembro de 2026 – O setor da construção civil é um dos maiores geradores de resíduos do Brasil. Estimativas do Conselho Nacional do Meio Ambiente indicam que os descartes de construção e demolição representam entre 50% e 70% do volume total de resíduos sólidos urbanos produzidos no país.

Durante muito tempo, o setor encarou esse dado como uma característica inevitável. Hoje, as empresas já reconhecem o problema e buscam soluções para enfrentá-lo — e aquelas que se anteciparam começam a colher benefícios que vão além da conformidade legal.

Muito além de uma obrigação regulatória, a gestão de resíduos na construção civil, seja de imóveis residenciais ou corporativos, atualmente é também uma alavanca de eficiência operacional e competitividade.

Construtoras que adotam práticas estruturadas de redução e reaproveitamento de resíduos relatam ganhos concretos em custo, prazo e qualidade. Além disso, assumem um posicionamento mais sólido junto a clientes e investidores que priorizam critérios ambientais na escolha de parceiros.

Esse movimento tem raízes em uma mudança de perspectiva dentro dos canteiros de obras.

Retrofit como alternativa à demolição e construção de um novo edifício

Em abril de 2026, a Cushman & Wakefield destacou o retrofit corporativo como estratégia para modernizar edifícios, reduzir impactos ambientais e aumentar o valor dos ativos.

A consultoria aponta que edifícios retrofitados podem alcançar valorização de até 30% no valor do m², além de reduzir custos operacionais.

O ponto ambiental é particularmente relevante. Assim, reaproveitar a estrutura existente evita parte dos materiais e resíduos associados à demolição e à construção de um novo prédio.

Um case internacional ajuda a dimensionar esse benefício.

A Reuters mostrou que o retrofit do Keppel Bay Tower, em Singapura, evitou aproximadamente 40 mil toneladas de carbono incorporado em comparação com a construção de um novo edifício. A reforma também reduziu o consumo de energia em 30%.

Além disso, há uma questão importante para o mercado de escritórios: edifícios antigos podem ser ambientalmente ineficientes e, ao mesmo tempo, comercialmente menos competitivos.

O retrofit permite atuar nos dois lados.

Nesse sentido, a Cushman & Wakefield destaca justamente a modernização de sistemas de iluminação, automação, ventilação, conforto térmico e acústico, além da adaptação dos espaços às novas formas de trabalho.

Menos desperdício começa na escolha dos materiais

O desperdício de material nas obras, que antes era absorvido como custo operacional natural, passou a ser encarado como ineficiência mensurável e corrigível.

Argamassa misturada em excesso, cortes de revestimento sem planejamento, embalagens descartadas sem reaproveitamento: cada um desses pontos representa uma perda que, somada ao longo de uma obra, pode comprometer de forma significativa a margem do projeto.

“A redução de resíduos começa na especificação. Quando o produto certo é escolhido para cada aplicação, com o rendimento adequado e a orientação técnica correta, o desperdício cai de forma natural. Não é apenas uma questão ambiental, mas sim de eficiência de obra”, afirma Talisa da Conceição, Coordenadora de Projetos da Viapol, uma das principais empresas brasileiras especializadas em soluções para a construção civil.

Neste processo, as indústrias têm um papel importante.

Na Viapol, o Departamento de Especificações e o Departamento Técnico atuam no apoio aos profissionais da construção, desde a análise das necessidades do projeto e definição dos sistemas até as orientações relacionadas à aplicação.

O objetivo é contribuir para que a escolha da solução considere não apenas o produto, mas as características e condições reais de cada obra.

Leia também:
– Mercado Livre x Shopee: mais de 1,1 milhão de m² de novas locações na corrida por galpões no 2T
– BTLG11 mira quase R$ 1 bi em galpões logísticos do Mercado Livre e Amazon
– Recorde de investimentos em infraestrutura acelera transformação digital da construção

Especificação técnica ajuda a reduzir perdas e aumentar a eficiência da obra

Do lado dos fabricantes, o desafio também está em desenvolver soluções que conciliam desempenho técnico, durabilidade, eficiência de aplicação e aspectos ambientais.

Nem sempre utilizar menos material significa gerar menor impacto. Uma análise mais completa precisa considerar fatores como vida útil, necessidade de manutenção e possibilidade de reparos pontuais. Além das condições de aplicação e o desempenho esperado para cada sistema.

Soluções com maior durabilidade, por exemplo, podem contribuir para reduzir a frequência de intervenções. Da mesma forma, a necessidade de substituição de materiais ao longo da vida útil de uma edificação.

Da mesma forma, determinadas tecnologias podem contribuir para o conforto térmico e, dependendo das características do projeto e das condições climáticas, auxiliar na redução da necessidade de climatização.

A agenda de sustentabilidade também tem influenciado as decisões de compra. Incorporadoras e construtoras com metas de ESG passaram a exigir dos fornecedores informações sobre a pegada ambiental dos produtos. Além das práticas de descarte das embalagens, criando um ciclo em que a demanda por materiais mais sustentáveis incentiva a inovação em toda a cadeia.

“Construir com menos desperdício é mais do que uma resposta às pressões ambientais. É uma forma mais inteligente de executar projetos, que beneficia o resultado da obra. Com iso, reduzindo custos e fortalecendo a reputação de quem atua no setor”, finaliza Conceição.

Deixe um comentário

Translate