Entrevista – Luís Artur Nogueira

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Foto: Tiago Martinelli

 

Luís Artur Nogueira

É jornalista e economista, com MBA em mercado financeiro. Atualmente é editor de economia da revista IstoÉ Dinheiro, além de já ter trabalhado nas revistas Exame e Info e nas rádios Bandeirantes e Trianon. Em 2009, recebeu o título de “Jornalista Econômico do Ano”, oferecido pela Ordem dos Economistas do Brasil, pela cobertura feita na crise internacional. Em 2015, foi laureado com a medalha “Ministro Celso Furtado”, na Câmara Municipal de São Paulo, pelos serviços prestados à sociedade na área de economia. Está na lista dos Jornalistas Mais Admirados do Brasil e entre os 10 maiores jornalistas econômicos pelo Prêmio Comunique-se.

 

 

Luís Artur Nogueira, editor de economia da IstoÉ Dinheiro, fala sobre o cenário econômico e político brasileiro.

Nos últimos dois anos, o noticiário brasileiro entrega, diariamente, uma enxurrada de notícias, matérias e artigos sobre o cenário político e econômico nacional. O momento que o País vive gera discussões e reflexões acerca do futuro do Brasil e, consequentemente, de todos os setores que trabalham em prol do desenvolvimento econômico. A queda do PIB, a falta de investimentos, a corrupção exposta pela Lava-Jato e as demissões em massa fizeram com que o País entrasse em um período de crise que não tem previsão clara para acabar.

Um dia após a Câmara dos Deputados ter votado a favor da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a Revista Buildings conversou com Luís Artur Nogueira, jornalista especializado em economia e com ampla experiência no ramo, para explicar o que motivou a configuração deste cenário e quais são as perspectivas para os próximos anos. Vale ressaltar que a conclusão do impeachment ainda pode levar muito tempo, mas, mesmo assim, é possível projetar algumas questões. Confira abaixo a entrevista exclusiva.

 

Você é formado em jornalismo e em economia. Qual profissão veio primeiro?

Sou jornalista. Quando estava no terceiro ano da faculdade, tive um chefe que me estimulou muito a ir para a área econômica e a entrar no curso de economia. Fiz o terceiro ano de jornalismo com o primeiro de economia e, então, tranquei economia para terminar jornalismo. Depois, finalizei o curso de economia. Na sequência, fiz um MBA focado no mercado financeiro para me aprofundar um pouco nessa área. Sou economista, com registro no Conselho Regional de Economia, mas não trabalho efetivamente como economista e nem presto consultoria. Atualmente, também faço palestras nas áreas de economia e de política.

 

Qual é a sua análise sobre o atual cenário econômico do Brasil?

É importante ressaltar que estamos conversando um dia após a Câmara dos Deputados ter aprovado a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Atualmente, isso tem tudo a ver com a economia. Em períodos normais, a política sempre foi importante, mas a economia tem um protagonismo em todas as áreas, inclusive no jornalismo. O noticiário econômico é acompanhado com muito mais atenção do que o político. Desde o processo eleitoral de 2014, a política ganhou protagonismo deixando a economia em segundo plano. Então, para responder sobre o atual cenário econômico, é necessário falar um pouco da política.

O Brasil tem um problema econômico que é fiscal, temos um governo que gasta além da conta. O País tem uma carga tributária enorme, ou seja, a população, os empresários e os consumidores já pagam muitos impostos. E, mesmo com toda essa arrecadação, o Brasil não está conseguindo cumprir com todas as suas obrigações. A gente costuma dizer que o governo não está cabendo dentro do País, que a máquina pública está muito inchada. De 2014 para cá, começamos a ter déficit. Isso é um problema enorme porque não é algo sustentável e, mais cedo ou mais tarde, acaba explodindo. É compreensível que, em ano eleitoral, o governo tenha gastado mais do que arrecadou. O governante em plantão gasta o máximo que pode para que gere boas notícias e ele ganhe votos. A surpresa em 2015 – quando a presidente Dilma assumiu o seu segundo mandato – foi que ela fracassou na tentativa de colocar as contas públicas em dia.

E, então, entra o componente político. Passamos por uma crise política que inviabilizou projetos importantes para a área fiscal e a solução econômica. A crise política piora a situação econômica que, por sua vez, gera más notícias, agravando a crise política. Isso vira um círculo vicioso.
Não saímos desse círculo até hoje. Um dia após a aprovação da abertura do processo de impeachment pela Câmara dos Deputados, temos um cenário muito provável da saída do atual governo e da entrada do vice-presidente Michel Temer. Essa simples mudança gera uma perspectiva de solução da crise política e, consequentemente, abre a possibilidade de resolver a crise econômica, em particular na área fiscal. Quando você tem a perspectiva de resolver isso, é possível vislumbrar dias melhores no futuro da economia.

 

Quais medidas o governo deve tomar para combater a inflação?

A origem de todos os problemas econômicos, na minha visão, é fiscal. O que o governo precisa fazer para combater a inflação, para fazer o País voltar a crescer e para as empresas voltarem a investir? Resolver a questão fiscal.
É o pontapé inicial para resgatar a confiança de consumidores e empresários. Caso contrário, o empresário não volta a investir, o consumidor não volta a consumir e, consequentemente, o País não volta a crescer.

No caso da inflação, especificamente, a questão fiscal é importante, porque, se o poder público gasta muito, acaba gerando inflação. Devemos entender que a inflação atual é diferente das perspectivas e da expectativa inflacionária. Quem forma essas expectativas é o mercado em geral – bancos, consultorias, empresas, consumidores –, todo mundo acaba formando um consenso. E, como não há nenhum cenário de controle fiscal, as contas públicas estão em um processo explosivo que faz com que as expectativas inflacionárias piorem muito, apesar da recessão econômica.

Temos uma situação muito particular no Brasil, é quase uma contradição econômica. Pela lógica, se você tem uma recessão – com o PIB afundando –, a inflação deveria afundar junto. Só que quando você tem um quadro fiscal fora de controle, apesar da recessão, a inflação continua alta. Vale lembrar que, hoje, o Brasil vive a pior recessão da sua história. Somando a queda do PIB de 2015 com a provável queda de 2016, o tombo dos dois anos é de cerca de 8%. Desde 1900, portanto desde o século passado, nós não temos um biênio com uma queda tão forte do PIB.

 

Apesar da tendência favorável ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, o processo ainda deve demorar um pouco. Como o setor privado pode continuar trabalhando durante este período?

O setor privado está com uma enorme expectativa. Com uma ou outra exceção, a maioria das empresas aprova a mudança de governo. Perceberam que o atual governo não tem condições de resolver a crise política e muito menos a fiscal.

O que pode acontecer: se o Senado aprovar a denúncia, a presidente Dilma é afastada temporariamente e Michel Temer assume. Assumindo interinamente, ele já começa colocando a sua marca, trocando ministros e adotando medidas1.

Se ele fizer o que os empresários consideram ideal, um clima positivo já será instaurado no mercado. Claro que isso não acontece da noite para o dia, mas a sinalização pode gerar bons frutos. A esperança é que o Temer tenha a capacidade de gerar perspectivas futuras ao sinalizar medidas corretas, assim, as pessoas vão deixar de olhar para o péssimo ano de 2016 e vão passar a imaginar um 2017 e um 2018 melhores, até mesmo, antecipando investimentos e consumos.

 

Em relação ao mercado imobiliário de escritórios, São Paulo registrou em 2015 o pico de entregas de novos edifícios. A superoferta ocasionou uma alta taxa de vacância que, por sua vez, faz com que novos investimentos sejam postergados. Como um edifício comercial leva cerca de dois anos para ficar pronto, você acredita que é prudente seguir os projetos agora, prevendo uma virada futura da economia?

Este é o grande dilema do empresário da construção civil que, com o cenário ruim, pisou no freio em relação aos investimentos. Mas, se todo mundo deixar de construir novos escritórios, mais cedo ou mais tarde a economia vai melhorar, a demanda vai crescer e alcançar a oferta. A hora que os empresários perceberem a retomada, eles vão voltar a construir e, como leva ao menos dois anos para a conclusão, é possível que faltem escritórios. Faz parte de um mercado que é cíclico.

Afirmar com todas as letras para os empresários, no meio dessa crise política-econômica, que eles devem continuar investindo em tudo o que haviam planejado porque daqui a dois anos – quando seu escritório estiver pronto – a economia vai estar ótima, é muito arriscado. O que podemos imaginar é que com o provável impeachment da atual presidente, o governo Temer terá condições políticas de fazer uma boa administração – resolvendo problemas da economia, melhorando o clima econômico em 2017, gerando crescimento em 2018 e entregando um País melhor e com condições de crescer. A capacidade do governo Temer e quem irá vencer as eleições em 2018 são fatores determinantes. Se for alguém que pegue o bastão e continue seguindo no caminho correto, podemos imaginar que 2019 e 2020 terão uma forte demanda de escritórios. Por este raciocínio, o empresário pode imaginar que em 2017 ele pode voltar a construir e colher os frutos a partir de 2019.

Porém, sempre terá aquela interrogação: e se der errado? E se o governo Temer não for tão bom quanto se imagina? E se quem ganhar em 2018 não fizer um bom governo? São dúvidas que um empresário cauteloso leva em consideração. Não consigo cravar 100%: invista de olhos fechados que vai dar tudo certo. E tem outra observação: cuidado para não ser muito cauteloso e engavetar tudo. Seu concorrente pode ser um pouco mais ousado e construir na sua frente e, assim, quando a economia retomar, ele terá escritório para entregar e você não.

 

Por causa do desequilíbrio entre crescimento e taxa de vacância, ocupantes de escritórios e galpões logísticos estão conseguindo negociar redução nos valores de aluguéis e compra de lajes. Você acredita que é hora do ocupante antecipar a sua renegociação ou ele deve esperar um pouco mais?

Antecipar, sem dúvida. O inquilino está em uma situação dramática, porque ele alugou um galpão ou um escritório e tem um custo fixo por ter feito o contrato quando a economia estava bem. Hoje o mercado dele caiu, a demanda caiu, os clientes que ele tinha estão comprando menos, pedindo descontos, etc., é natural negociar o custo do aluguel com o dono do imóvel. Agora, olhando sobre o ponto de vista do locador, acredito que ele não pode ignorar o cenário econômico. Do mesmo jeito que ele ganhou muito dinheiro durante o boom imobiliário, jogando o preço do aluguel lá em cima porque tinha muita demanda e pouca oferta, agora ele está do lado oposto do balcão. Está na hora de ser mais flexível e reduzir um pouco o preço. O que tenho notado em São Paulo é que o dono do imóvel é muito rigoroso, não negocia o valor, o inquilino quebra, vai embora e ele fica com o imóvel vago e sem conseguir um novo cliente. Era melhor ter negociado e dado fôlego financeiro para o inquilino do que ficar com o imóvel vazio.

 

Em outros países, o reflexo de uma recessão e de um mercado imobiliário fragilizado é quase imediato, com quedas abruptas de preço. Assim como você apontou, no Brasil isso parece não ocorrer, o que gera uma total estagnação no mercado de terrenos. Qual é a explicação para isso?

Acredito que tenha até uma questão de amadurecimento do mercado brasileiro. De fato, tenho notado nessa crise econômica que o mercado imobiliário demorou a responder. Como ele viveu os últimos anos de muita euforia, o investimento no setor passou a ser um ótimo negócio e muitas pessoas entraram nesse segmento em todas as áreas, seja comercial e galpões, seja imóveis residenciais. E elas tinham a expectativa que o boom era infinito, mas a economia é cíclica, crises vêm e vão e é normal que seja assim, bem como é normal que o mercado imobiliário seja atingido. Portanto, como tinha muita gente que entrou nesse mercado com uma expectativa enorme de ganhar dinheiro, na hora em que veio a crise, o investidor não abriu mão. Ele investiu e quer retorno. No primeiro momento, ele tinha o cliente com o contrato amarrado, mas, o que ele não percebeu é que é melhor negociar com esse inquilino e mantê-lo do que esperar acabar o contrato – ou até quebra-lo antes – e ficar com um imóvel vazio. Naturalmente, ele espera um mês, dois, três, seis meses e percebe que não tem demanda, então começa a reduzir o preço. Só que isso tudo leva tempo.
Não tenho dúvidas de que essa crise trouxe muitos ensinamentos, inclusive pra quem investiu no mercado imobiliário. Em uma eventual crise futura, provavelmente a reação será mais rápida. Os outros mercados lá fora são mais maduros e esse amadurecimento no Brasil é uma lição dessa crise.

 

Atualmente, a atividade industrial passa por uma notável redução, o que resulta em uma vacância de cerca de 20% dos galpões logísticos. Mesmo em um mercado ativo, a indústria brasileira sofre com uma série de problemas de infraestrutura e com um sistema complexo de impostos. Qual é o caminho mais prático para resolver estas questões?

Estes são pontos importantes: infraestrutura e impostos. A indústria é o setor que mais sofreu nesta crise. Mesmo quando a economia estava bem, já não acompanhava os mercados, oscilando entre anos bons e ruins. Isso aconteceu porque a economia no governo Lula foi puxada pelo consumo, o que fez com que houvesse uma invasão de produtos importados e um consumo menor de itens produzidos pela indústria brasileira. Para piorar, o câmbio estava valorizado, com um Real muito forte. Esse Real não ajudava a nossa indústria a exportar, pelo contrário, facilitava a importação. A indústria está pior que a média da economia e sofre como um todo, inclusive com a falta de infraestrutura. Ela até pode ser eficiente dentro da fábrica, mas na hora de entregar o produto encontra rodovias ruins, carência de ferrovias e portos com gargalos, enfim, perde competitividade ao longo de toda a cadeia. Além disso, tem uma das maiores cargas tributárias do mundo.

Para reverter esse panorama, primeiro você resgata o clima de confiança. Em um segundo momento, é preciso dar um jeito de diminuir o tamanho do Estado para que seja feita uma reforma tributária. Não tenho a ilusão de que isso vai acontecer da noite para o dia, mas é preciso, ao menos, sinalizar que isso pode acontecer. E, por último, fazer investimentos em infraestrutura. Esse ponto me preocupa muito. Em algum momento, a economia vai retomar e quando acontecer nós vamos sentir falta dessa infraestrutura que ficou parada. Isso será um gargalo lá na frente. Quando a economia voltar a crescer – e voltará – vamos discutir, de novo, os problemas da infraestrutura e os gargalos logísticos da economia brasileira. No mundo ideal, durante a crise, deveríamos estar investindo em infraestrutura por dois motivos: ajudaríamos a economia a cair menos e estaríamos preparando o Brasil para uma retomada de crescimento. Não estamos fazendo nem uma coisa, nem outra.

 

Os investidores estrangeiros estão aproveitando a crise para adquirir empresas brasileiras e para realizar investimentos?

Sim, apesar de toda essa desconfiança e cautela em relação ao Brasil, eles estão aproveitando. Principalmente os chineses. A China tem muito dinheiro atualmente e busca oportunidades no mundo inteiro. Como o Brasil teve uma desvalorização cambial muito grande, os ativos em reais ficaram baratos. O estrangeiro olha o cenário com certa desconfiança, mas vê o ativo muito barato. Por que não? Mais cedo ou mais tarde o Brasil vai dar a volta por cima. E o Brasil é muito grande. Chegamos a ser a oitava, sétima, sexta maior economia do mundo. Agora caiu um pouco, contudo, ainda estamos entre as dez maiores.
E você não pode fechar os olhos para uma das dez maiores economias do mundo, não pode ignorar um mercado do tamanho do Brasil. Fico muito surpreso quando vejo notícias destacando que investidores estão preferindo Argentina, Peru, Chile, México, etc., cada um desses países tem suas características, vantagens e oportunidades. No entanto, comparar o tamanho do Brasil com o tamanho dessas economias é covardia. Nenhum grande setor pode fechar os olhos para o Brasil.

1Esta entrevista foi realizada um dia depois da aprovação do processo na Câmara, no dia 17 de abril. Atualmente, Dilma Rousseff já está afastada.

 

Fonte: Buildings

 

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