Artigo escrito por *Hermano Souza, da Prologis
A pandemia de 2020 acelerou tendências que já estavam em curso, mas nenhuma delas evoluiu tão rapidamente quanto o e-commerce. O que começou como uma necessidade circunstancial — comprar sem sair de casa — transformou-se em um hábito consolidado de muitos consumidores brasileiros.
Mas essa mudança não ocorreu de forma espontânea: ela foi sustentada por uma profunda evolução na experiência de consumo. Além de uma revolução silenciosa na infraestrutura logística do país.
Assim, nos primeiros meses da pandemia, o comércio eletrônico tornou-se uma alternativa quase obrigatória. A sua manutenção como hábito, no entanto, deve-se a três fatores essenciais:
- Variedade e disponibilidade — Plataformas ampliaram catálogos, integraram sellers e ofereceram uma experiência de navegação cada vez mais inteligente e personalizada;
- Confiabilidade — O aumento da segurança nas transações, políticas claras de devolução e atendimento mais eficiente reduziram barreiras históricas de adoção;
- Prazo de entrega — A busca por entregas cada vez mais rápidas transformou-se no novo padrão competitivo, o que levou a uma explosão na demanda por ativos logísticos próximos aos centros urbanos.
Com cerca de R$ 225 bilhões movimentados em 2024 e um salto de 311% nos últimos cinco anos, o e-commerce segue em expansão acelerada no Brasil. Isso vem impulsionado por uma experiência digital cada vez mais madura e pela necessidade constante de ampliar a logística para atender a um consumidor mais exigente.
Mais cliques, mais metros quadrados — por que o e-commerce precisa de mais espaço
Segundo um estudo da Prologis, as operações de e-commerce necessitam até três vezes mais espaço logístico do que o varejo físico tradicional. Essa diferença não é acidental, mas decorre da própria natureza do varejo digital.
No varejo físico, o sortimento sempre foi limitado por um elemento simples: o espaço disponível em loja.
Uma loja de rua, um supermercado ou até uma grande loja de departamento tem prateleiras, corredores, áreas de circulação e estoque físico restritos.
Na prática, isso significa que esse limite físico molda a operação, o produto só entra na prateleira se houver espaço físico e fluxo suficiente para justificar sua presença.
No ambiente digital, esse teto desaparece, e as opções de produto podem se expandir quase sem limite.
Nesse sentido, o e-commerce funciona como uma plataforma de sortimento amplificado, na qual milhares de sellers, fabricantes e distribuidores podem listar produtos simultaneamente. Isso cria uma espécie de “catálogo expandido”, que reúne:
- Produtos de baixa, média e altíssima rotatividade;
- Itens sazonais e permanentes coexistindo;
- Variações, tamanhos, cores e modelos que jamais caberiam em uma loja física;
- Milhares de produtos extras adicionados diariamente, sem restrições espaciais.
Na prática, uma loja física oferece milhares de opções de produtos, já o e-commerce oferece milhões. Essa abundância tem um custo operacional direto: quanto maior for o número de produtos, maior a necessidade de espaço físico para suportar a diversidade do inventário.
Isso exige áreas mais amplas para armazenagem e estruturas capazes de lidar com produtos de tamanhos e características muito diferentes, zonas dedicadas a picking, packing e triagem, dimensionadas para milhares de produtos simultâneos e flexibilidade no layout, algo inviável no varejo convencional, onde o produto precisa disputar espaço de prateleira.
Ou seja, o catálogo ilimitado do e-commerce só se sustenta porque, atrás da tela, opera uma infraestrutura logística robusta, com uma rede de centros de distribuição cada vez mais ampla e mais sofisticada.
Democratizando a escala: a logística e o e-commerce como inclusão econômica
Um ângulo menos comentado — e cada vez mais relevante — é o papel crescente dos sellers. O ecossistema digital permitiu que milhares de pequenos empreendedores alcançassem seu cliente potencial sem barreiras geográficas, estruturais ou de escala.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as vendas de micro e pequenas empresas por meio de plataformas digitais saltaram de R$ 5 bilhões em 2019 para R$ 67 bilhões em 2024, um crescimento de 1.200%.
Esse avanço mostra que o e-commerce tem se tornado não apenas um hábito dos consumidores — é também um instrumento competitivo poderoso para as pequenas empresas, ampliando sua capacidade de distribuição, reduzindo custos de entrada e profissionalizando sua logísica.
Muitos negócios que antes dependiam exclusivamente do varejo físico local agora têm acesso a mercados regionais, nacionais e até internacionais.
E essa democratização só é possível porque, por trás das plataformas digitais, tem se construído uma rede de infraestrutura logística escalável e integrada, capaz de dar suporte tanto aos grandes varejistas quanto aos pequenos sellers.
Centros de armazenagem e distribuição e hubs avançados tornam viável que MPEs, mesmo com estoques menores, atendam consumidores com a mesma qualidade e velocidade das grandes marcas.
A infraestrutura logística como espinha dorsal da economia digital
A rápida expansão do e-commerce, tanto pelo lado da demanda (consumidores) quanto pelo lado da oferta (sellers), elevou a importância do setor logístico a um patamar estratégico. O ativo imobiliário deixou de ser apenas espaço de armazenagem para se tornar um capacitador de negócios.
No Brasil, esse movimento é particularmente relevante: a ampliação do acesso digital, o crescimento das plataformas e o amadurecimento do consumidor estão moldando uma nova geografia logística.
O hábito veio para ficar e está transformando o real estate
O e-commerce deixou de ser um fenômeno conjuntural para tornar-se um comportamento arraigado, sustentado por experiências melhores, prazos mais curtos e uma oferta crescente de produtos. Ao mesmo tempo, permitiu que milhares de pequenos empreendedores crescessem, vendessem mais e alcançassem mercados antes inacessíveis.
Essa combinação está impulsionando a demanda por infraestrutura logística moderna, abrindo novas oportunidades para o desenvolvimento de galpões, centros de distribuição e hubs urbanos. Por fim, o boom do e-commerce não acabou. Ele está entrando em uma nova fase: menos emergencial e mais estrutural, com impactos profundos e duradouros para o mercado de real estate no Brasil.
*Hermano Souza é Country Manager da Prologis Brasil
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