Artigo escrito por Thiago Piovesan, CEO da INDIGO no Brasil
Os estacionamentos, durante muito tempo, foram tratados apenas como uma extensão do ativo imobiliário. Em muitos casos, passavam quase despercebidos aos olhos do empreendedor, embora jamais fossem irrelevantes para o cliente.
Projetos greenfield ou retrofits eram concebidos com foco exclusivo no edifício: metragem, estética e eficiência estrutural. Já os pátios e área de estacionamento ficavam em segundo plano, sob a premissa simplista de que bastava “funcionar”.
Esse paradigma, no entanto, começou a mudar.
À medida que os ativos geradores de tráfego evoluíram, tornou-se evidente que o estacionamento possui não apenas potencial relevante de geração de receita, mas também capacidade de influenciar diretamente a experiência do usuário.
O setor imobiliário amadureceu e passou a extrair valor de todos os pontos de contato com o cliente. E o estacionamento deixou de ser invisível aos seus olhos.
Hoje, o estacionamento representa, na prática, a primeira e a última experiência de quem acessa um empreendimento. É ali que a jornada começa, seja para clientes, colaboradores ou visitantes, e também onde ela se encerra.
Essa experiência pode influenciar decisivamente a decisão de retorno ao empreendimento, dependendo do nível de conveniência, eficiência, experiência e satisfação proporcionado.
Estacionamento como diferencial estratégico do ativo
Em um cenário de concorrência cada vez mais acirrada, esse fator ganha ainda mais relevância. Localização e padrão construtivo, isoladamente, já não são suficientes para sustentar um diferencial competitivo.
Assim, a qualidade da experiência no estacionamento passou a ter peso significativo nessa equação, impactando inclusive o valor percebido do empreendimento.
Quando bem operado e integrado à proposta do ativo, esse espaço de guarda dos veículos deixa de ser apenas suporte operacional e passa a atuar como extensão da experiência.
Ele deve refletir a cultura, o nível de serviço e os valores do imóvel, contribuindo de forma consistente para a jornada do usuário.
Para alcançar esse nível de maturidade, é fundamental evoluir a gestão e o modelo operacional. Uma operação profissional, apoiada por tecnologia, inteligência e análise de dados, é capaz de transformar tanto a eficiência operacional quanto a valorização do ativo.
Com essa abordagem, é possível construir um modelo de estacionamento altamente customizado ao perfil de público que o frequenta, maximizando sua geração de valor ao mesmo tempo em que eleva a qualidade da experiência do usuário.
O conceito mais avançado é aquele que permite a coexistência de diferentes estacionamentos dentro do mesmo estacionamento, adaptando-se às necessidades específicas de cada perfil de cliente.
Soma-se a isso a possibilidade de realizar uma gestão preditiva e personalizada, possibilitando dimensionar com precisão os recursos necessários, evitando excessos ou insuficiências, e aumentando a eficiência operacional. Além disso, permite mapear padrões de uso, flexibilizar preços, entender o perfil socioeconômico dos usuários e tomar decisões mais estratégicas com base em dados.
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Estacionamento como parte de um conceito ampliado de mobilidade
Outro ponto que considero fundamental é enxergar o estacionamento como parte de um conceito ampliado de mobilidade. As garagens deixam de ser apenas pontos de chegada e saída (jornada final) e passam a atuar como elos intermediários na jornada urbana.
Assim, a crescente presença de veículos elétricos, aplicativos de transporte e soluções de micromobilidade exige uma reconfiguração desses espaços.
As vagas passam a incorporar novos atributos: pontos de recarga, áreas de embarque e desembarque, zonas de integração e transição entre modais. Nesse cenário, o estacionamento contribui para transformar o empreendimento em um verdadeiro hub de serviços e mobilidade, ampliando seu potencial de geração de valor.
No fim, não se trata apenas de profissionalizar a operação de estacionamentos, mas de reconhecer seu papel estratégico dentro do negócio como um todo. Subutilizar esse espaço é negligenciar um ponto crítico da jornada do cliente, e isso pode comprometer, direta ou indiretamente, o desempenho do ativo como um todo.
Como gosto de reforçar, estacionamentos são ativos sensíveis, complexos e com enorme potencial.
Para utilizá-los plenamente, é necessário adotar uma visão estratégica, especializada e alinhada às transformações no comportamento humano e na mobilidade urbana. Proprietários e investidores que compreenderem esse movimento estarão mais preparados para gerar valor, diferenciar seus empreendimentos e fortalecer a fidelização dos seus clientes.
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