Artigo escrito por Maria Angela Polo, CEO da We Are Group
A pandemia não apenas mudou onde o trabalho acontece. Ela alterou, de forma definitiva, o papel do espaço corporativo dentro das empresas.
Durante décadas, o escritório foi tratado como um dado fixo: um endereço, uma estrutura, um custo necessário para a operação. Esse modelo foi colocado à prova quando, de forma abrupta, as empresas precisaram operar fora dele e continuaram funcionando.
Esse foi o ponto de ruptura.
A partir dali, o trabalho deixou de estar condicionado ao espaço. Mas o espaço, curiosamente, nunca deixou de ser importante. Ele apenas perdeu sua função antiga.
Agora, o que se observa é um movimento de reequilíbrio. Empresas têm reforçado a importância do encontro entre pessoas como parte da construção de cultura, da velocidade de decisão e da qualidade das interações.
O erro está em assumir que basta retomar a ocupação para que o espaço volte a cumprir esse papel. Não volta.
O escritório que existe hoje, na maioria das empresas, foi desenhado para um modelo de trabalho que já não existe mais. E os números ajudam a evidenciar isso.
O problema não é falta de área. É falta de aderência
Em São Paulo, por exemplo, a taxa de vacância de edifícios corporativos de alto padrão (Classe A e A+) segue em queda, apresentando resultado de 12,70% de taxa de vacância no segundo trimestre, segundo dados da Buildings. Leia mais aqui: Escritórios Classe A em São Paulo: vacância cai no 2T de 2026, enquanto aluguéis avançam
O que se observa é que grande parte dos ambientes corporativos ainda opera com lógica rígida, com estações fixas, baixa flexibilidade e pouca diversidade de uso. Muitos deles sem acompanhar a dinâmica real do trabalho contemporâneo, que alterna concentração, colaboração e interação ao longo do dia.
O efeito disso não é imediato, mas é profundo: as pessoas ocupam o espaço, mas não permanecem nele com qualidade.
Ambientes que não sustentam conforto, foco e interação de forma equilibrada geram desgaste, reduzem a disposição para permanência e impactam diretamente a produtividade e o engajamento.
Por isso, o maior risco que as empresas enfrentam hoje não está na revisão dos seus modelos de trabalho, mas em ignorar que o espaço precisa evoluir junto com eles.
O escritório voltou a ser relevante, mas sob uma nova lógica. Ele deixou de ser um local de execução e passou a ser um ambiente de ativação: de cultura, de colaboração e de tomada de decisão. E isso exige intencionalidade. Leia também: O escritório não acabou: ele mudou de função
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Reforma de escritório é oportunidade
É nesse ponto que o retrofit dos ambientes corporativos deixa de ser uma pauta estética e passa a ser uma decisão de negócio.
Recentemente, conduzimos um projeto em que uma empresa ocupava um escritório com baixa eficiência de uso, áreas ociosas e excesso de posições fixas que já não refletiam a dinâmica da equipe.
A solução não foi expandir nem mudar de endereço, mas redesenhar o espaço existente. Ao reduzir a rigidez do layout, criar zonas distintas para concentração, colaboração e interação, melhorar as condições acústicas e reconfigurar áreas subutilizadas, o impacto foi além do ambiente físico.
Houve aumento da permanência voluntária, melhora perceptível na qualidade das interações e uma ocupação mais equilibrada ao longo da semana. O espaço passou a funcionar a favor da operação.
Esse é o ponto central: o escritório deixou de ser um ativo passivo. Ele passou a ser uma variável ativa de performance. E, como toda variável estratégica, precisa ser gerido, ajustado e, quando necessário, transformado.
No fim, a discussão não é sobre a adoção de um modelo específico de trabalho. É sobre coerência.
As empresas dizem que querem mais colaboração, mais troca e mais cultura, mas a pergunta que poucas estão fazendo é simples: o ambiente que elas oferecem sustenta, de fato, esse tipo de trabalho?
Se a resposta for não, o problema não está nas pessoas. Está no espaço.
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